11.9.15

Será que ele vai ligar?


Ele chega com um jeito todo dele. Para na porta, abre aquele sorriso e ajeita a manga da blusa social que está usando. Meu coração pula três vezes dentro do peito. Dois passos e ele está sentado na mesa em frente à minha. Ele conversa distraidamente com os amigos, enquanto leva o copo de chopp à boca. Eu reparo em como a barba mal feita combina com ele, e que quando ele ri ou sorri, duas covinhas surgem tímidas em seu rosto moreno. Ele chama o garçom e distraído pousa os olhos nos meus. Sinto minha bochecha queimar. Desvio o olhar, mas sinto dois olhos em cima de mim. Pego o meu copo de coca-cola e concentro nas bolhas de gás descendo pela minha garganta. 

Minhas amigas conversam empolgadas sobre o novo vizinho do 313. Tento entrar na conversa e descubro que o novo vizinho em questão é moreno, possui barba e malha das 17 ás 19, e sobe todo dia no elevador com a Paulinha. A pele morena e a barba me fazem lembrar do nosso vizinho de mesa e decido olhar de canto de olho pra ver como está a situação por lá. Ele está rindo de alguma piada que os amigos contaram. A risada dele me faz dar um risadinha também. De repente minhas amigas estão me olhando e lá vai minha bochecha queimar outra vez. Paulinha pergunta o motivo da graça e digo ''Não sei''. Recebo olhares matadores das meninas, mas se elas soubessem o quanto de verdade há na minha resposta... A graça de pele morena, barba mal feita e riso frouxo não me contou ainda qual seu nome. Respiro fundo e digo ''Não sei o nome, mas sei que está na mesa ao lado'' e rio. Elas olham, eu bufo. Ter amigas indiscretas é com certeza a comprovação de mico e bochechas queimando pela terceira vez na noite. Chamo o garçom e peço tequila. Paulinha, Júlia e Babi repetem em coro ''Pra gente também''. O garçom deixa as quatro tequilas na mesa e recebo três olhares. 

''Você vai falar com ele, ou vai tomar as quatro tequilas...'', diz Júlia. ''Tudo bem, bebo as quatro tequilas!'', antes mesmo de terminar a frase já pego a primeira dose e o limão. ''Nãooooo'', grita Babi. ''Siiiiiiiimmmm'', eu grito de volta. Não vou falar com ele. Eu prefiro ficar bêbada e fazer um stripper na mesa do bar do que falar com ele. Prefiro entrar em coma alcoólico e ter que pedir pra Paulinha ligar pra minha mãe e dizer que vou dormir na casa dela, enquanto passo a noite no hospital tomando soro, do que falar com ele. Prefiro danç...''Larga a tequila e chama ele pra dançar'', ouço. Minha risada sai mais alta do eu posso imaginar. Recebo alguns olhares, inclusive da mesa ao lado. ''Gente, não!'', convenço as meninas. 

Por fim, bebemos as tequilas. Lá pelas tantas Júlia diz que seu pai está vindo nos buscar. Chamo o garçom e peço uma caneta.  

''Adorei a barba mal feita e a camisa social. Que tal eu levar você pra dar um rolê qualquer dia? 
11 997654342. Me liga ta 
xx'' 

Passo na mesa e deixo em frente à ele. 

Chego em casa, e antes de dormir só consigo pensar: Será que ele vai ligar?



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